Há cerca de 40 anos que ouço o meu padrinho tratar Portugal como o "Portugal das couves"! Finalmente entendo. Não é pela gastronomia mas sim porque durante séculos, nos habituamos simplesmente a plantar couves!
Plantávamos couves porque a lógica do povo agrícola nos dizia:
• "O meu vizinho planta, e parece resultar".
• "Eu também tenho um quintal".
• “Realmente cresce fácil e em abundância”
• "Claro que não alimenta muito, mas dá para a sopa todos os dias!"
Se foi este o "paradigma" do turismo residencial em Portugal nos últimos anos, e considerando que as condições actuais de mercado se alteraram, não será oportuno alterarmos o Status Quo retomando a vocação de um povo de “Descobridores” - inovador, determinado, capaz de se adaptar, criativo e empreendedor? Vejamos:
"O MEU VIZINHO PLANTA, E PARECE RESULTAR"
Em Portugal houve de facto, nos últimos anos, um significativo desenvolvimento do turismo residencial. Surgiram casos de sucesso, com raízes em locais idílicos do sul de Portugal, baseados numa fórmula de sucesso composta por 1) hotéis de qualidade, 2) campos de golfe e 3) construção e venda de imobiliário turístico.
Então, outros começaram também a "plantar couves", esquecendo-se da velha máxima que diz que "o que parece fácil, geralmente não é".
Mas a formula não é tão simples, não se trata de uma cadeia de produção em que basta comprar as máquinas, parametrizá-las e alimentá-las com as matérias primas conhecidas (sol, mar e outros) e Voilá!! Temos o nosso resort com hotel/golfe/spa que terá sucesso porque é igual a todos os outros!
"EU TAMBÉM TENHO UM QUINTAL..."
"Quintais há muitos!", lá por eu ter um pedaço de terra, ou algum individuo me ter oferecido um excelente quintal para eu plantar as minhas couves, não quererá dizer que a terra será fértil.
Quantos se terão lembrado de avaliar em detalhe os três factores críticos de sucesso que aprendemos na escola: "Location, location and location". Não estamos a falar aqui da localização na vertente de beleza natural ou proximidade à praia. No nosso grande pequeno país, isso é fácil. O que importa de facto é qualificar a nossa localização no conceito do “todo”, do seu enquadramento com o produto turístico planeado, com a oferta alternativa existente, com a atractividade da região como ponto de interesse, com actividades lúdicas, culturais, desportivas ou outras. Estes factores de localização não só devem ser cuidadosamente qualificados, como devem ser comparativamente quantificados. Devemos perceber de uma vez por todas que um estudo de mercado feito de forma profissional é um investimento para o sucesso, e não um custo sem retorno. Somente trilhando o processo necessário à procura da informação, a recolha dos dados e respectiva formulação de recomendações irá trazer significativas vantagens na geração de novas ideias, perspectivas e identificação do “Way Forward “. Quem já passou por este processo sabe reconhecer que é nesta fase de desenvolvimento (ou re-análise) do projecto que são criadas as condições de sucesso para a definição do produto turístico. Claro que uma análise SWOT da localização irá também qualificar outros aspectos fundamentais como os acessos, o potencial de exploração do terreno, implantações ideias tendo em conta as necessidades do mercado e do consequente product mix, entre outros.
“REALMENTE CRESCE FÁCIL E EM ABUNDÂNCIA”
Convém relembrar que “o todo é mais importante que a soma das partes”. Como é que isto se aplica a nossa problemática do turismo residencial?
Construir, de facto hoje em dia não é complicado. Construir com visão e antecipação das necessidades operacionais, do posicionamento do produto, das tendências do mercado na vertente da procura e da oferta, e do “Usability Factor” ainda é!
Por exemplo, não é suficiente adquirir um terreno, construir um hotel, casas e apartamentos à volta, desenhar e implantar um campo de golfe e já agora um spa. Por maior que seja a qualidade de cada uma das componentes, estas no seu conjunto, não serão sinónimos de sucesso do “todo”.
Urge pensar e enquadrar o projecto tendo em conta o seu propósito final - atrair o mercado. Mercado este que terá sido objecto de análise e caracterização para ser atraído para o produto e sua localização, e não para o produto concorrente. E deverá o mesmo produto ter sido dimensionado para a afluência prevista, porque as projecções económico-financeiras foram estudadas e assim o exigem. Estas projecções económico-financeiras são coerentes porque foram previamente trabalhadas baseadas em pressupostos de performance nas vertentes hoteleiras, imobiliária e turísticas, ou ainda de golfe, spa, náutico, equestre ou outras componentes de lazer. Mais, depois de atrair o cliente, há que assegurar que os serviços funcionam de forma eficiente, isto implica um trabalho prévio de adequação das áreas técnicas e back-of-house.
O “todo”, o conceito chave e o seu desenho é o factor crítico de sucesso. É a visão da “floresta” que vai fazer a diferença.
“NÃO ALIMENTA MUITO, MAS DÁ PARA A SOPA DE TODOS OS DIAS”
Os descobridores são ambiciosos, inovadores, não temem errar e são resistentes às adversidades. Ou seja, são empreendedores! Esta é a verdadeira solução para sairmos da tão propalada crise.
A ambição implica visão, representando o início da viagem. A inovação faz com que novos caminhos sejam encontrados, até porque não tendo medo de errar eles serão resistentes às dificuldades encontradas. Não concordo com a máxima “pau que nasce torto jamais se endireita”. Pelo contrário, verifico na minha actividade profissional que são cada vez mais os empreendedores que apostam em re-avaliar os seus projectos, em re-fazer as suas análises de mercado, actualizar as suas projecções financeiras e, inovar os seus produtos imobiliários, turísticos e hoteleiros. Estes são os descobridores.
Não resisto em citar o Sr. Pedro Janeiro num artigo de opinião recente, que retrata na perfeição o nosso paradigma actual:
“A crise assusta-nos, e queremos rumar de volta ao porto de abrigo, mas não é lá que se pesca”! Na mouche!
Ouvimos, ou observamos, repetidamente agentes e entidades envolvidos no mercado a dizer, ou a praticar, o famoso “Wait & See”. Não me parece uma abordagem de descobridor. Pelo contrário, actualmente a prática deveria ser “Think & Run For It”!
É conhecimento comum, que tempo de crise representa oportunidades. Portugal verifica condições excepcionais propícias à prosperidade. Somos um povo hospitaleiro e autêntico, continuamos a desfrutar de um clima fabuloso, e de condições naturais e culturais ímpares. Dispomos de infra-estruturas condignas, produtos turísticos qualificados e diversificados (de Norte a Sul). Basta-nos cultivar a ambição, inovar, repensar o que temos e procurar o que ainda nos falta.
Wait & See? Não me parece... Think & Run For It mas é!